A recente ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela marca um ponto de inflexão nas relações internacionais e envia uma mensagem direta aos países da América Latina e de outras regiões do mundo. A avaliação é do pesquisador em Relações Internacionais, economista e professor da PUC Minas, Bruno Haeming, em entrevista ao jornalista Ernesto Júnior.
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Segundo Haeming, o conflito entre Venezuela e Estados Unidos não é recente e se intensificou ao longo de décadas de atritos diplomáticos, sanções econômicas e disputas estratégicas. Nos últimos anos, o governo de Nicolás Maduro conseguiu minimizar parte dos impactos dessas sanções por meio do fortalecimento das relações com Rússia e China, movimento que desagradou diretamente Washington.
“A Venezuela se tornou um aliado estratégico da Rússia na América do Sul, especialmente na área energética, além de manter relações importantes com a China, interessada no petróleo venezuelano”, explica o professor. Para ele, esse alinhamento foi determinante para a escalada do conflito.
Petróleo no centro da estratégia dos EUA
Haeming destaca que a operação norte-americana teve caráter cirúrgico e estratégico, com ataques direcionados a bases e equipamentos militares, além da captura e retirada de Maduro e de sua esposa para os Estados Unidos. De acordo com o pesquisador, o próprio presidente Donald Trump, em coletiva concedida em Mar-a-Lago no dia 3, deixou claro que o petróleo foi um dos principais motivadores da ação.
A Venezuela detém cerca de 17% a 18% das reservas mundiais de petróleo, o que a torna uma peça-chave no tabuleiro energético global, apesar de se tratar de um petróleo de extração mais complexa e custosa.
Para o especialista, a ofensiva representa mais do que uma ação isolada. Trata-se de um recado explícito aos países da América Latina. “A mensagem é clara: qualquer país que se oponha de forma contundente aos interesses dos Estados Unidos pode estar sujeito a intervenções diretas”, afirma Haeming, ressaltando que esse alerta se estende inclusive a países como o Brasil.
Ele associa essa postura ao chamado “Corolário Trump”, documento divulgado no fim do ano passado e interpretado por analistas como um reavivamento da Doutrina Monroe, que defende a primazia dos interesses norte-americanos no continente.
Riscos internos e instabilidade regional da América Latina
Ao contrário de intervenções anteriores dos EUA, como no Afeganistão, Iraque ou Panamá, Haeming observa que a Venezuela possui uma estrutura estatal e militar mais sólida, o que torna o cenário ainda mais complexo. Além disso, a ausência de uma liderança clara para substituir Maduro pode abrir espaço para instabilidade política, disputas internas e até mesmo o risco de guerra civil.
Embora o professor reconheça que Maduro enfrentava forte rejeição popular e denúncias de autoritarismo, ele ressalta que a retirada forçada de um líder de um país soberano levanta questionamentos sobre o direito internacional e a soberania nacional.
O pesquisador alerta ainda para os possíveis desdobramentos globais da ação norte-americana. Países do Sudeste Asiático, do Oriente Médio, da Ásia Central e do Cáucaso podem buscar maior proteção junto a potências como China e Rússia, redesenhando o mapa das alianças militares e de segurança internacional.
“Podemos estar diante de um novo capítulo das relações internacionais, com uma reorganização das alianças globais baseada no medo de intervenções diretas”
Para o especialista, a crise na Venezuela não se limita às fronteiras do país e pode redefinir a dinâmica da segurança internacional nos próximos anos, ampliando tensões e aprofundando disputas geopolíticas em diferentes regiões do mundo.




