Maio Laranja: abuso sexual infantil ainda faz cerca de 190 vítimas por dia no Brasil, alerta psicóloga
Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes reforça a importância da prevenção, do diálogo familiar e da denúncia
O dia 18 de maio marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, uma das datas mais importantes da agenda de proteção da infância no Brasil. Em entrevista à RBV, a psicóloga da Polícia Civil de Videira, Claudiana da Silva, fez um alerta contundente sobre a gravidade da violência sexual contra crianças e adolescentes e destacou a necessidade urgente de prevenção, acolhimento e denúncia.
Segundo a profissional, os números são alarmantes e demonstram que o abuso sexual infantil continua sendo uma realidade presente dentro e fora dos lares brasileiros. “Infelizmente, a gente tem dados alarmantes do anuário de segurança pública, que a cada hora no nosso país cerca de sete crianças são abusadas. Isso dá um número de cerca de 190 crianças abusadas em um dia no país. Isso é gritante”.
A data de conscientização foi criada em memória da menina Araceli Cabrera Sánchez Crespo, de apenas 8 anos, sequestrada, violentada e assassinada em 1973, em um crime que chocou o Brasil.
“Esse dia 18 de maio é uma lembrança constante de que as nossas crianças precisam ser protegidas”
Claudiana atua há mais de 11 anos em delegacias de proteção e reforça que o enfrentamento à violência sexual infantil é uma luta diária. Um dos pontos que mais preocupa os órgãos de proteção é o fato de que a maioria dos casos ocorre no ambiente familiar. Segundo Claudiana, mais de 70% das situações envolvem pessoas próximas da vítima.
“Normalmente é uma pessoa que tem acesso a essa criança: pai, tio, irmão, padrasto. O perigo muitas vezes está dentro da casa”
Ela também chama atenção para a subnotificação de casos envolvendo meninos. “Temos abusos sexuais envolvendo meninos com menos notificações do que meninas, porque ainda existe um tabu social para que isso seja denunciado.”
Como conversar com crianças sobre prevenção ao abuso sexual
Durante a entrevista, Claudiana destacou que a prevenção começa dentro de casa e que pais e responsáveis precisam falar sobre corpo, limites e proteção de forma natural e adequada à idade da criança.
“A criança precisa entender que o corpo dela é o espaço dela e que o outro só pode entrar nesse espaço se ela permitir”
Segundo a psicóloga, é fundamental ensinar às crianças a diferença entre um toque de cuidado e um toque abusivo. “O toque bom sempre vai ser para cuidar de você. O problema é quando existe um toque que desperta medo, vergonha ou desconforto.”
Ela reforça que o diálogo não deve ser tratado como tabu. “A sexualidade e o corpo humano ainda são tratados como algo vergonhoso dentro das famílias. E isso dificulta a prevenção.” Mudanças repentinas de comportamento podem indicar que algo não vai bem. Claudiana orienta que pais, responsáveis e educadores estejam atentos.
Entre os principais sinais de alerta estão:
Medo excessivo de determinadas pessoas;
Pesadelos frequentes;
Isolamento e retraimento;
Mudanças bruscas de comportamento;
Resistência a abraços, colo ou contato físico;
Queda no rendimento escolar;
Ansiedade ou tristeza constante.
“Se a criança passou a ter medo de alguém ou não quer mais sentar no colo de determinada pessoa, isso é um sinal de alerta”
A psicóloga alerta que o pior erro é desacreditar da fala da criança. “Essas pequenas frases como ‘você tem certeza?’, ‘você não sonhou?’ geram insegurança na criança.” Ela explica que o papel do adulto é acolher, ouvir e buscar ajuda imediatamente.
“Se uma criança te escolheu para conversar, o teu papel é ouvir, acolher e proteger.”
Outro ponto importante é não prometer segredo. “Não prometa silêncio. Prometa que você vai ajudar a protegê-la.” Segundo Claudiana, os impactos psicológicos do abuso sexual infantil podem acompanhar a vítima por muitos anos.
“O abuso sexual traz danos psíquicos gigantes para a vida dessa criança. O abuso sexual é um evento traumático da vida, mas ele não precisa determinar o resto da vida dessa criança.”
Meios digitais aumentam vulnerabilidade de crianças e adolescentes
A psicóloga também fez um alerta sobre os riscos no ambiente virtual. Segundo ela, o acesso precoce e sem supervisão às redes sociais aumenta a exposição a situações de violência.
“Uma criança sem limite e sem supervisão está vulnerável a qualquer tipo de violência.”
Ela orienta que os pais não devem apenas proibir o uso do celular, mas acompanhar e supervisionar o conteúdo acessado pelos filhos. “Eles já nasceram no meio digital. Negar isso é um erro. A questão é limite e supervisão.