Família Kindermann anuncia fim das atividades com o futebol feminino

Depois de 46 anos, sendo 13 dedicados exclusivamente ao futebol feminino, o Kindermann futebol, que atualmente participa das competições como “Avaí Kindermann”, encerra oficialmente as atividades sob a gestão da família fundadora. Pela primeira vez desde o falecimento do presidente e fundador da equipe, Salézio Kindermann, a família que vinha sendo questionada sobre o futuro do time, se pronunciou.

Em entrevista exclusiva para a repórter do SCC10, Andrielli Zambonin, Daniel e Valéria Kindermann, genro e filha de Salézio, confirmaram que a família vai encerrar as atividades ligadas ao futebol feminino. As 18 atletas que estavam contratadas com carteira de trabalho assinada e que participaram da Libertadores Feminina 2021, foram dispensadas com baixa na carteira e tiveram todos os direitos previstos em lei pagos pela família. O mesmo aconteceu com a comissão técnica que trabalhou junto à equipe.

“Tomamos essa decisão com a alma, coração e consciência limpa, sabendo que fizemos o que foi possível para que o time chegasse até aqui e concluísse o calendário de competições previstas para 2021. Sabemos do carinho que muitos brasileiros têm pelo Kindermann Futebol Feminino, o quanto essa história e esse legado merecem respeito. Mas esse era o sonho do Salézio Kindermann. O futebol ocupava 100% do tempo dele, ele tinha dedicação exclusiva a isso, entendia e amava esse mundo. Em respeito ao legado dele, nós como família e as atletas que permaneceram até aqui, fechamos este ciclo com a participação na Libertadores, onde encerramos como a 5ª melhor equipe. O legado nunca será apagado, mas a era Kindermann futebol, mantida pela nossa família, encerra aqui”, disseram Daniel e Valéria.

O time encerra as suas atividades com todas as contas pagas. Todas as atletas e integrantes da comissão técnica receberam tudo o que lhe era de direito. A família também negociou outras dividas antigas e pagou todos fornecedores, entre mercado, transporte, fabricantes de uniformes, academias, convênios de saúde e etc.

O ano de 2021 tinha tudo para ser um ano histórico para o Avaí Kindermann (de certa forma, será). Não fosse a brutalidade da pandemia de Covid-19, que mudou os rumos da história e colocou dúvidas, angustias e perdas no caminho.

A temporada começou com a equipe do Napoli sendo campeã Brasileira da série A-2. Título cobiçadíssimo por Salézio Kindermann, que fazia a gestão da equipe. Já no Kindermann, o clima era de contratação de grandes nomes que reforçariam o time para disputar a Libertadores 2020 (adiada para 2021 por conta da pandemia de Covid-19). Disputar uma Libertadores era o sonho de Salézio Kindermann, que mesmo tendo a vaga em 2016, não conseguiu participar devido ao clube ter temporariamente fechado as portas já que no ano anterior, em 2015, o então treinador da equipe, Josué Karcher, foi assassinado.

As leoas acabaram sendo eliminadas da Libertadores 2020 na fase de grupos. Campeão Brasileiro com o Napoli, pós participação na Libertadores, Salézio tomou a sua primeira dose da vacina contra a Covid-19. E durante a preparação para o Campeonato Brasileiro, Salézio testou positivo para covid-19 em 5 de abril. Três dias depois, foi internado e intubado em estado gravíssimo. O dirigente apresentou melhora, sendo retirado dos aparelhos e transferido para uma UTI voltada a pacientes sem o vírus. No dia 12, porém, uma parada cardiorrespiratória agravou o quadro. E no dia 15 de maio de 2021, aos 77 anos, o fundador da Associação Esportiva Kindermann falece.

A perda afetou não apenas a família, mas também atletas e a equipe de Salézio no futebol. Salézio falece deixando para trás dois times, Napoli e Avaí Kindermann, disputando a primeira divisão do Campeonato Brasileiro, pelo menos 65 funcionários entre as duas equipes e um custo mensal de aproximadamente R$ 270 mil por mês para bancar as duas equipes.

Com o emocional abalado, a competição parecia ainda mais difícil para as atletas. Como entrar em campo se o homem que fundou tudo aquilo não estava mais ali para aplaudir?

Além disso, Salézio não era apenas o fundador da equipe. Ele é quem monitorava e organizava tudo nos times. Era ele mesmo que exercia as funções de tesoureiro, secretário, recursos humanos, marketing, vendas, logística e etc. O monopólio das informações, estava única e exclusivamente na mente de Salézio. Nada nunca tinha sido registrado em tabelas ou organizado no Excel. Tudo estava na mente e acabou indo embora com o fundador.

“Do dia para a noite nós tivemos que assumir a responsabilidade de 65 pessoas, dois times e um custo mensal de R$ 270 mil. Sendo que esse era o hobbie do Salézio, era a paixão dele, e não nossa, da família. Nós somos hoteleiros. Nosso ramo é uma empresa de hotéis. Sabemos falar de hotel, e não de futebol feminino. E do dia para a noite, apesar de não ser nossa obrigação continuar com tudo isso, nos viramos do zero para organizar e entender como tudo funcionava. Demos o nosso melhor para que a equipe não se encerrasse no meio de uma competição e cumprisse o seu calendário de disputas. Fizemos isso não por ser nossa obrigação, porque esse era compromisso do Salézio, mas fizemos para honrar o nome e o legado dele. Demos o nosso melhor e chegou a hora de encerrar”, disseram Daniel e Valéria durante entrevista ao SCC10.

Após o falecimento do Salézio, a família Kindermann fez as contas. Juntando os patrocinadores e a verba que o Avaí deveria enviar mensalmente, somava menos de R$ 100 mil, ainda assim não pagava as contas. A verdade é que o Salézio era também o principal investidor da equipe. Ele depositava altos valores mensais, tirados do próprio bolso, para fazer o time continuar e ficar em pé.

A família precisou cortar gastos. Napoli encerrou as atividades assim que foi eliminado do Campeonato Brasileiro A-1. Depois da eliminação, a equipe foi devolvida a Associação Esportiva Napoli, que contempla outras atividades esportivas também. A comissão do Napoli deve avaliar o futuro do futebol feminino após a eleição de um novo presidente.

Já, com o Avaí Kindermann, o calendário se prolongou. Além do Brasileirão tinha um Catarinense e uma Libertadores. A família precisou vender bens e tirar dinheiro do próprio bolso para bancar os custos da equipe. O fato, é que nenhuma atleta ficou com o salário atrasado depois que a família assumiu.

“Nós tivemos o compromisso de sempre pagar todo mundo em dia. E sempre deixamos tudo claro para as atletas. Desde o momento em que Salézio faleceu, conversamos com todas elas e deixamos elas liberadas para procurarem outras equipes. Nos preocupamos também com o futuro delas. Deixamos elas livres, e a par de tudo o que foi ocorrendo. Deixamos elas cientes de que a Libertadores seria a última competição em que a família estaria envolvida. As atletas que ficaram, ficaram por decisão delas. Por quererem cumprir a missão e fechar o ciclo da equipe. Elas foram sensacionais, temos muito orgulho das meninas e de toda a comissão técnica”, destacou a família Kindermann.

Antes da própria família assumir o clube, a Associação Esportiva Kindermann tinha pendencias de mais de R$ 800 mil. Estas pendencias foram negociadas e a família continua pagando os débitos anteriores deixados.

Onde o Avaí entra e o que pode acontecer com o time no futuro

Essa relação entre o Avaí e o Kindermann começou em 2019, e envolve o valor de R$50 mil/mês, que foi combinado entre o presidente Francisco José Battistotti, do Avaí, e o falecido presidente Salézio Kindermann. Esse valor deveria ser enviado mensalmente do Avaí para o Kindermann. Em contrapartida, o Kindermann passa a usar o nome “Avaí” e o escudo do time lado a lado em todas as competições.

A vaga conquistada para todas as competições, é do CNPJ do Kindermann. Ou seja, o Avaí não tem direito a nenhuma vaga no feminino, sem o Kindermann. Em uma reunião entre a família e o Avaí, o time azurra demonstrou interesse em assumir o time feminino. Porém, o Avaí tem eleição em dezembro, e essa decisão de assumir o feminino, só deve vir depois da eleição da nova presidência.

Para 2022, o Kindermann tem vaga garantida na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. O que também poderia acontecer com o time, é de alguém querer comprar a equipe. Porém mesmo que isso aconteça, o nome “Kindermann”, por se tratar de sobrenome da família, não deve mais ser usado no mundo do futebol feminino, salvo em situação específica de negociação. “Quem tem preferência em ficar com o time é o Avaí. Mas estamos abertos a negociações caso alguém queira investir ou comprar a equipe. A equipe vem com o peso e o respeito já conquistados, também a vaga na primeira divisão e todas as contas em dia. Vamos entregar um time fechadinho, tabelado e pronto para ser tocado. Mas vamos avaliar se a pessoa que for assumir tem responsabilidade para honrar toda a história até aqui. E sobre o nome ‘Kindermann’, não gostaríamos que fosse utilizado, salvo alguma situação específica, legal e mediante contrato”, destacou a família.

Se outra pessoa comprar o time e a vaga, terá um time sem contas, mas também sem atletas. Já que basicamente 90% das atletas do clube já estão em negociação com outras equipes do Brasil. Apesar disso, a comissão técnica segue disponível para ajudar caso alguém assuma. Vale a pena ressaltar que toda a comissão técnica e formada por profissionais de Caçador.

“Se o Avaí não assumir, se mais ninguém quiser fazer a gestão e bancar a equipe, vamos enviar uma carta a CBF abrindo mão das nossas vagas e dar seguimento aos tramites legais e burocráticos”.

O legado Kindermann Futebol

Kindermann encerra as atividades de 13 anos exclusivos com o futebol feminino com 12 títulos estaduais, duas vezes vice-campeão Brasileiro, campeão da Copa do Brasil, duas participações em Libertadores sendo que na última foi a 5ª melhor equipe da competição. O Kindermann revelou alguns dos maiores nomes atualmente do futebol feminino, como Gaby Zanotti, Julia Bianchi, Andressinha, Djeini, Camilinha, Gabi Portilho entre outros nomes.

Além das conquistas no esporte, o Kindermann se destaca no seu papel social, oferecendo bolsas de estudo em parceria com a UNIARP, onde cerca de 50 atletas conseguiram concluir o ensino superior, formando além de atletas, enfermeiras, fisioterapeutas, educadoras físicas e outras.

“Acho que cumprimos a missão. Fechamos esse ano com o time em 8º no Brasileiro, em 5º na Libertadores, campeão catarinense, com os salários em dia e sempre pautados na transparência principalmente com as atletas. Quem ficou, ficou para fechar o ciclo. Queremos agradecer os torcedores e dizer que o legado não será apagado. Novamente, gostaríamos de agradecer as Atletas e Comissão Técnica que ficaram conosco ate o final. Temos o maior orgulho desse time. Nós, família, não temos condições financeiras e nem conhecimento para continuar no futebol feminino. Por isso estamos encerrando o ciclo. O responsável por toda essa trajetória vitoriosa, sempre foi o Salézio. E agora precisamos encerrar”, finalizaram Daniel e Valéria.

Fonte: SCC SBT
Foto: SCC SBT

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