A história de Tiago Martins Pitthan emocionou milhares de pessoas pela forma singular com que encarou os últimos meses de vida. Conhecido por organizar o próprio velório para participar da despedida ao lado de amigos e familiares, ele morreu aos 47 anos, em Campo Grande (MS), após enfrentar um câncer de estômago em estágio avançado.
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Ao receber o diagnóstico de que a doença não tinha possibilidade de cura, Tiago decidiu dar um novo significado ao tempo que ainda lhe restava. Em vez de esperar por uma despedida após a morte, reuniu familiares, amigos e até pessoas que não conhecia em um encontro marcado por música, celebração e gratidão, permitindo que todos compartilhassem esse momento enquanto ele ainda estava presente.
No domingo (5), já internado no hospital, Tiago publicou seu último vídeo nas redes sociais. Na gravação, deixou uma mensagem que sintetizou sua maneira de enfrentar a doença. “Estou bem, em paz, feliz. Valeu a pena. Tudo valeu a pena. Tive uma vida boa e é isso. Eu venci. Um beijo do Bom Sujeito.”
As palavras refletem a postura adotada desde que soube da gravidade do câncer. Em vez de concentrar forças tentando controlar aquilo que não poderia mudar, escolheu viver intensamente cada oportunidade que ainda tinha.
Essa decisão ganhou forma no dia 30 de maio, quando participou da própria cerimônia de despedida.
O evento aconteceu em um antigo galpão de uma cervejaria de Campo Grande e foi planejado pelo próprio Tiago. A programação reuniu apresentações musicais, rodas de conversa, encontros entre amigos e diversas atrações. O público acompanhou apresentações de bossa nova, samba, rock, um flash mob e ainda um aquarelista que registrava toda a celebração em tempo real, produzindo uma obra que Tiago fazia questão de preservar.
Outro momento especial envolveu a música. Mesmo sem qualquer experiência anterior, ele resolveu aprender a tocar guitarra depois que a doença avançou. O objetivo era realizar um antigo sonho: subir ao palco ao menos uma vez. E conseguiu transformar esse desejo em realidade.
‘Lá em cima não tem câncer’
Desde o início do tratamento, Tiago nunca negou a realidade da doença. Sabia que o câncer era irreversível, mas acreditava que ainda poderia decidir como viver o tempo restante.
Os primeiros sinais apareceram no fim de 2023. Durante a viagem de Réveillon para Bonito (MS), ele percebeu que já não conseguia se alimentar normalmente. Bastavam poucas garfadas para sentir o estômago completamente cheio, além de episódios frequentes de vômito.
Após realizar exames, a endoscopia confirmou um adenocarcinoma gástrico, considerado o tipo mais comum de câncer de estômago. Inicialmente, a equipe médica planejava retirar o órgão por meio de cirurgia. No entanto, durante o procedimento, foram encontradas metástases no intestino, no peritônio e indícios de comprometimento pulmonar, tornando impossível o tratamento com intenção curativa.
Ao falar sobre o diagnóstico, Tiago resumiu o momento vivido. “Eu descobri que não tinha cura. Que teria de viver com aquilo; provavelmente, morrer daquilo”, contou.
Mesmo enfrentando sessões de tratamento, ele procurou manter a rotina durante o maior tempo possível. Continuou trabalhando, praticando atividades físicas e preservando hábitos que faziam parte da sua vida. Com o avanço da doença, perdeu peso, ficou fisicamente mais debilitado e passou a conviver com os efeitos do câncer e da quimioterapia.
Ainda assim, continuou realizando sonhos. Pouco antes da festa de despedida, retornou a Bonito, onde desceu cerca de 70 metros de rapel até o Abismo Anhumas. No dia seguinte, também realizou outro desejo antigo: saltou de paraquedas.
“Lá em cima não tem câncer. Só tem eu e aquele mundão.”
Uma despedida planejada em cada detalhe
A organização da própria despedida também incluiu providências para facilitar a vida dos familiares após sua morte.
Tiago deixou senhas organizadas, definiu o destino de objetos pessoais e conversou com pessoas próximas sobre diversas decisões práticas. Apenas o velório tradicional ficou sob responsabilidade da família.
Durante o tratamento, a mãe esteve ao seu lado em todos os momentos. Ele havia retornado para Campo Grande com a intenção inicial de cuidar dos pais. Com o agravamento da doença, porém, foi ela quem passou a cuidar dele diariamente.
Nos últimos meses, Tiago realizava quimioterapia paliativa e imunoterapia. O tratamento já não tinha como objetivo eliminar o câncer, mas retardar sua evolução e proporcionar mais qualidade de vida.
Ele costumava afirmar que a morte não era seu maior medo. O que realmente o preocupava era o processo até ela: a dor, a possibilidade de ficar restrito a uma cama e de não conseguir aproveitar o tempo que ainda lhe restava.
Por isso, decidiu viver cada oportunidade. Aprendeu a tocar guitarra, subiu ao palco, reencontrou amigos, viajou, saltou de paraquedas, promoveu uma celebração da própria vida e escreveu uma despedida rara, marcada não pela ausência, mas pela presença de quem escolheu aproveitar cada instante até o fim.



