A morte de Vergílio Pereira da Silva, aos 110 anos, em Campos Novos, no Meio-Oeste de Santa Catarina, trouxe à tona uma história de vida marcada por sofrimento, escravidão, resistência e superação. Após o falecimento, familiares decidiram compartilhar relatos sobre o passado do idoso e agora trabalham para preservar sua memória por meio de documentos e testemunhos.
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Reconhecido na comunidade pela impressionante longevidade, Vergílio morreu no dia 7 de julho, poucos meses antes de completar 111 anos. Com a partida do patriarca, os filhos passaram a reunir informações que ajudem a reconstruir sua trajetória, repleta de desafios, episódios de violência e um longo caminho até conseguir recomeçar a vida.
Relatos apontam infância marcada por sofrimento
Maria Claudete, filha de Vergílio, contou que o pai dizia ser filho de uma mulher escravizada e de um fazendeiro descendente de alemães, que nunca o reconheceu oficialmente.
Conforme os relatos transmitidos por ele à família, ainda na infância teria sido vendido para uma fazenda localizada no Mato Grosso. No local, enfrentava maus-tratos, fome e permanecia sob constante vigilância para impedir qualquer tentativa de escapar.
Segundo a família, a fuga aconteceu quando Vergílio tinha apenas 12 anos. Durante cerca de três meses, percorreu estradas a pé, conseguiu caronas com tropeiros e passou diversas noites dormindo em árvores para evitar ser encontrado, até finalmente chegar ao município de Campos Novos.
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Recomeço em Campos Novos mudou sua história
Ao alcançar a cidade catarinense, Vergílio viveu aproximadamente seis meses nas ruas. A mudança de rumo aconteceu quando foi acolhido por uma família da região, que lhe ofereceu moradia, alimentação e uma oportunidade de trabalho.
De acordo com Maria Claudete, foi a partir desse acolhimento que ele conseguiu reconstruir sua vida e criar raízes em Campos Novos. Ao longo dos anos, trabalhou na agricultura, em uma olaria e também em empresas instaladas no município.
Vergílio casou-se com Angelina de Matos Pereira, com quem compartilhou 55 anos de casamento. Da união nasceram sete filhos: Maria Claudete, Maria Elizabete, Maria Catarina, Joslaine, Fábio Junior, Jorge e Edson.
Ainda segundo a filha, somente na época do casamento ele conseguiu obter o registro civil e passou a possuir documentação oficial.
Ao recordar a história do pai, Maria Claudete resume o impacto das dificuldades enfrentadas por ele ao longo da infância. “Meu pai não teve juventude. Escravo não tem liberdade”, afirma.
Família quer manter viva a memória de Vergílio Pereira
Mesmo após se aposentar, Vergílio continuou levando uma vida ativa, segundo os familiares. Sua morte mobilizou a família, que agora pretende preservar sua trajetória para que as próximas gerações conheçam sua história.
Maria Claudete afirma que pretende reunir novos depoimentos, registros e documentos que ajudem a contar a vida do pai de forma mais completa, mantendo viva a memória de quem enfrentou inúmeras dificuldades para construir uma nova história.
Ao refletir sobre tudo o que Vergílio viveu, ela acredita que ainda há muito a ser contado. “Se fosse contar toda a vida do pai, daria um livro” destaca.

