Os direitos humanos voltaram ao centro do debate internacional neste início de 2026, impulsionados por uma série de conflitos geopolíticos que envolvem diretamente grandes potências mundiais. O tema foi analisado em profundidade durante o RBV Entrevista, da Rádio Videira, apresentado pelo jornalista Ernesto Júnior, com a participação do professor de Direito e especialista em Direitos Humanos, João Vítor Smaniotto.
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Segundo o entrevistado, o cenário global atual é marcado por um agravamento das tensões internacionais, com impactos diretos sobre a soberania dos países e a garantia de direitos fundamentais. “2026 chegou mostrando muito claramente que teremos um ano duro, um ano complicado, especialmente por ser um ano eleitoral no Brasil e na América Latina”, afirmou.
Ao comentar a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, Smaniotto destacou que, independentemente das críticas ao regime político venezuelano, houve uma violação clara da soberania do país. “Não quero discutir se a Venezuela é uma ditadura ou não, mas sem sombra de dúvidas a soberania venezuelana foi violada”, ressaltou.
“O que está em jogo não são os direitos da população venezuelana, mas o controle de territórios e recursos estratégicos, como o petróleo”
Ele ainda alertou que a América Latina segue sendo tratada como uma região de exploração. “Historicamente, a América Latina é vista como um espaço de extração de matéria-prima, de recursos naturais e de mão de obra barata, e não como um espaço de desenvolvimento.”
Groenlândia e a seletividade do discurso sobre direitos humanos
Outro ponto central da entrevista foi a crescente tensão envolvendo a Groenlândia, território ligado à Dinamarca, diante de declarações de lideranças norte-americanas sobre uma possível anexação. Para Esmanihoto, esse caso evidencia a seletividade do discurso internacional sobre direitos humanos.
“Quando se fala em possível violação de soberania na Groenlândia, o discurso sobre direitos humanos ganha força porque envolve um território europeu”, explicou. Segundo ele, esse tratamento desigual não é novidade. “Os direitos humanos são universais na teoria, mas, na prática, o discurso se intensifica quando os direitos dos europeus estão ameaçados.”
“A guerra em Gaza mostrou imagens de bombardeios covardes contra mulheres e crianças, mas a resposta internacional foi limitada. Já na Ucrânia, o impacto foi tratado como algo muito mais próximo do ‘modo de vida ocidental“
Origem dos direitos humanos e interesses do Ocidente
Durante a entrevista, Smaniotto contextualizou historicamente a criação dos direitos humanos. “Os direitos humanos ganham força jurídica após a Segunda Guerra Mundial, principalmente como resposta às violações cometidas contra populações europeias”, explicou.
Ele destacou que atrocidades semelhantes ocorreram antes, como durante a escravidão e o genocídio de povos originários. “O que chocou o Ocidente não foi a violência em si, mas o fato de ela ter sido cometida contra homens brancos, europeus, de olhos claros”, afirmou.
Segundo o professor, os direitos humanos estão diretamente ligados ao modelo econômico e político ocidental. “Eles são fruto de uma democracia liberal, de uma economia capitalista e de um modo de vida ocidental que busca preservar seus próprios valores.”
Eleições de 2026 e o uso político do medo
Ao analisar o cenário brasileiro, Esmanihoto alertou que os direitos humanos e a Venezuela devem voltar a ser usados como ferramentas políticas nas eleições de 2026. “Nós vamos ser bombardeados por discursos que usam o medo como estratégia eleitoral, assim como aconteceu em 2022”, avaliou.
“Temos problemas muito mais concretos no Brasil, como a jornada 6×1, a justiça tributária e a qualidade de vida do trabalhador, mas essas pautas não interessam em época eleitoral”
O professor reforçou que o medo paralisa a sociedade. “O medo é um elemento central da política, especialmente da extrema direita. Ele impede a ação, congela as pessoas e faz com que se busque segurança a qualquer custo.”
ONU, conflitos internacionais e limites institucionais
Questionado sobre o papel da ONU, Smaniotto foi direto ao apontar suas limitações. “A ONU hoje tem pouca capacidade de ação efetiva, principalmente porque o Conselho de Segurança é dominado por grandes potências com poder de veto”, explicou.
Ele lembrou que os Estados Unidos são o país que mais utilizou o veto em decisões envolvendo conflitos armados. “No caso de Gaza, por exemplo, qualquer tentativa de intervenção foi bloqueada pelos Estados Unidos. Para o professor, a ONU atua mais como mediadora do que como força de intervenção. “Ela senta à mesa, negocia, tenta evitar que os conflitos se ampliem, mas não tem força militar própria para agir de forma decisiva.”
Encerrando a entrevista, Smaniotto alertou que o Brasil e a América Latina seguem no centro das disputas globais. “O Brasil está em disputa por suas riquezas naturais, como a Amazônia, as terras raras, a água e o Aquífero Guarani”, destacou.
“A América Latina não será emancipada por quem sempre nos explorou. Precisamos construir nossas próprias políticas e caminhos”




