Produtores rurais do Rio Grande do Sul e do Paraná enfrentam dificuldades para adquirir diesel em pleno período de colheita de arroz e soja. Além da escassez do combustível, agricultores também relatam aumentos considerados “abusivos” no preço do produto, situação que gera preocupação no setor agrícola e pode afetar diretamente os custos de produção e logística no campo.
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Segundo relatos de agricultores, o cenário mudou rapidamente em poucos dias. O produtor de arroz Fernando Rechsteiner, que trabalha na região de Pelotas (RS), explica que até recentemente não havia qualquer problema com o fornecimento do combustível. No entanto, a realidade mudou no início desta semana.
“Até o início da semana passada, ninguém se preocupava com a entrega de diesel. Já nessa semana, eu fui fazer um pedido e fui colocado em uma lista de espera. Estava pagando R$ 5 o litro, e já subiu para R$ 7”, conta o produtor.
No Paraná, a situação também preocupa. De acordo com Luiz Eliezer Ferreira, técnico do departamento econômico do Sistema FAEP, vários agricultores começaram a relatar falta de diesel desde terça-feira (10).
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“No Paraná, temos recebido relatos de falta de diesel desde terça. Um produtor de Rio Azul, por exemplo, nos informou que a distribuidora que atende na região não possui o combustível”, afirma.
“Outros relatos semelhantes estão chegando de Faxinal, Guarapuava, Prudentópolis e Irati”, acrescenta.
Já na cidade de Erechim, no norte do Rio Grande do Sul, cerca de 20% dos produtores relatam dificuldades para encontrar o combustível necessário para operar máquinas agrícolas e caminhões. O presidente do Sindicato Rural de Erechim, Allan André Tormen, destaca que além da escassez, os preços também dispararam.
“Todos relatam alta de preço que varia 20% a 55%”, acrescenta.
Alta do petróleo aumenta tensão no mercado
As reclamações surgiram cerca de uma semana após o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, que provocou forte valorização do petróleo no mercado internacional. Com a tensão geopolítica, o barril chegou a atingir a marca de US$ 100, o que pressiona os preços dos combustíveis em diversos países.
Mesmo sem reajuste oficial da Petrobras até o momento, o diesel já apresentou aumento médio de aproximadamente 7% nos primeiros dias de março.
Apesar das reclamações de produtores, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) afirma que não identificou falta de combustível no país. No domingo (8), o órgão divulgou uma nota informando que entrou em contato com fornecedores e que o Rio Grande do Sul possui estoque suficiente para garantir o abastecimento.
“As distribuidoras serão formalmente notificadas para que prestem os devidos esclarecimentos à ANP sobre o volume em estoque, os pedidos recebidos e os pedidos efetivamente aceitos”, informou a agência.
Abastecimento no campo depende de entregas constantes
Diferentemente de grandes empresas, a maioria dos produtores rurais não possui infraestrutura para armazenar grandes volumes de diesel. Por isso, dependem de entregas frequentes feitas por empresas conhecidas como Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs).
Essas empresas compram combustível das grandes distribuidoras e realizam a entrega diretamente nas propriedades rurais, garantindo o funcionamento das máquinas agrícolas e o transporte de alimentos.
Segundo Carlos Schneider, diretor do SindTRR no Rio Grande do Sul, o problema atual ocorre porque essas transportadoras não estão recebendo diesel das distribuidoras.
“A maioria das TRRs não possui contratos fixos com as grandes distribuidoras. Elas operam como clientes ‘spot’ (bandeira branca), o que as coloca no final da fila de prioridades das distribuidoras”, explica.
Suspeita de especulação e investigação
Diante da falta de explicações claras sobre a situação, produtores e entidades do setor começaram a suspeitar de um possível movimento especulativo no mercado de combustíveis.
O economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio Luz, avalia que a situação pode estar relacionada à retenção de estoques.
“O diesel que está saindo das distribuidoras foi comprado com petróleo abaixo de US$ 60”, diz.
“O sujeito vê que o preço vai subir e segura o produto que ele tem estocado para vender 50% mais caro. Isso é algo extremamente danoso”, ressalta.
Além disso, Schneider explica que o Brasil precisa importar entre 25% e 30% do diesel consumido no país. Caso as distribuidoras reduzam essas importações diante do aumento do preço internacional, pode surgir um vazio no abastecimento interno.
Diante das denúncias de preços abusivos, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu uma investigação após solicitação da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon).
Biodiesel surge como alternativa para ampliar oferta
Para enfrentar o problema e reduzir a pressão sobre os preços do diesel, entidades do agronegócio defendem ampliar o uso de biodiesel no mercado nacional.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) solicitou ao Ministério de Minas e Energia o aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel, passando dos atuais 15% para 17%.
No documento enviado ao governo, o presidente da entidade destacou a importância da medida.
“O avanço da mistura de biodiesel representa uma medida importante e sustentável para ampliar a oferta de combustível no mercado doméstico, reduzir pressões sobre os custos logísticos e fortalecer a segurança energética nacional”, explica no ofício o presidente da CNA, João Martins.
Além disso, entidades como a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) e a Fecombustíveis defendem permitir a importação de biodiesel para atender até 20% da demanda nacional, o que poderia ajudar a conter novas altas nos preços do diesel e garantir o abastecimento no campo.

