A proteína de insetos vem sendo estudada no Brasil como uma possível alternativa para a produção de novos ingredientes alimentares. Pesquisas envolvem espécies como grilos e larvas de besouros e analisam desde a composição nutricional até formas de processamento, segurança e aceitação dos consumidores.
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Entre os produtos estudados estão farinhas, concentrados e isolados proteicos. Embora sejam derivados dos mesmos animais, esses ingredientes não são equivalentes: a farinha integral pode conter proteínas, gorduras, minerais e quitina, enquanto concentrados e isolados passam por processos adicionais para aumentar a proporção de proteínas.
Pesquisas avaliam potencial nutricional
Os insetos podem fornecer proteínas, aminoácidos essenciais, gorduras e micronutrientes. A composição, entretanto, varia de acordo com a espécie, fase de desenvolvimento, alimentação do inseto e processamento utilizado.
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A Unicamp desenvolve uma tecnologia utilizando o grilo Gryllus assimilis para separar diferentes componentes do inseto, como proteínas, fibras e lipídios. A proposta é aproveitar as frações obtidas na produção de ingredientes com características específicas para aplicação na indústria de alimentos.
Um parecer publicado pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) em 2024 avaliou formas congeladas, secas e em pó do grilo doméstico (Acheta domesticus). Nas amostras secas e em pó analisadas, os valores de proteína bruta ficaram entre 61,7 e 68,6 gramas por 100 gramas.
A própria EFSA ressalta, porém, que o método convencional de cálculo pode superestimar a quantidade de proteína verdadeira, porque também considera o nitrogênio presente na quitina. Por isso, esses valores não devem ser generalizados para todas as farinhas de insetos.
Segurança e alergias exigem atenção
O potencial nutricional não significa que a proteína de insetos seja superior a fontes tradicionais como ovos, soja, feijão ou suplementos. A comparação depende da espécie, da quantidade efetivamente consumida, da digestibilidade, do processamento e da composição do alimento final.
A segurança também é uma questão central. A avaliação europeia do Acheta domesticus considerou condições e quantidades específicas de consumo, e não qualquer inseto ou farinha produzida a partir desses animais.
Entre os pontos de atenção estão microrganismos, contaminantes presentes no substrato utilizado na criação e condições de armazenamento. As proteínas dos insetos também podem provocar reações alérgicas, especialmente em pessoas com alergia a crustáceos e ácaros.

Por isso, insetos capturados no ambiente ou produtos destinados a outras finalidades, como iscas e ração animal, não devem ser tratados como alimentos para consumo humano.
Brasil possui regras para novos alimentos
No Brasil, a regulamentação de novos alimentos e ingredientes é estabelecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A RDC 839, de 14 de dezembro de 2023, atualizou esse marco regulatório.
O enquadramento considera fatores como histórico de consumo no país, composição, origem e processo de produção. Quando os requisitos para comprovação de histórico seguro não são atendidos, pode ser necessária uma avaliação de segurança.
A existência desse procedimento não significa que um ingrediente autorizado em outro país esteja automaticamente liberado para comercialização no Brasil. Cada produto, processo e finalidade de uso precisa ser enquadrado conforme as regras sanitárias aplicáveis.
Na apuração realizada para esta reportagem, não foi confirmada uma autorização brasileira específica para os ingredientes de insetos analisados.
O Jornal da Unicamp informou, em junho de 2026, que a produção e a venda de insetos para consumo humano ainda não eram permitidas no país. Empresas brasileiras também mantêm atividades relacionadas à produção de insetos para alimentação animal.
Ciência também estuda aceitação do consumidor
Além da parte nutricional e sanitária, a aceitação do público é um dos desafios para o desenvolvimento desse mercado.
A Embrapa realizou estudos de percepção e degustação de produtos elaborados com insetos. Os resultados indicaram que informações sobre características do alimento e aspectos relacionados à saúde, associadas à apresentação dos produtos, podem contribuir para reduzir a resistência dos consumidores.
A forma de apresentação também é estudada. Em vez de oferecer o inseto inteiro, pesquisadores avaliam a utilização de farinhas e ingredientes incorporados a alimentos como biscoitos e outros produtos formulados.
No entanto, intenção de compra em um estudo não significa necessariamente consumo efetivo e não representa automaticamente a opinião de toda a população.
Sustentabilidade é outra frente de pesquisa
O uso de insetos como fonte de proteína também é discutido sob a perspectiva ambiental. A FAO aponta potencial de eficiência na conversão alimentar e possibilidade de menor utilização de recursos em comparação com sistemas convencionais de produção.
A avaliação ambiental, entretanto, depende de toda a cadeia produtiva. É necessário considerar fatores como alimentação dos insetos, aquecimento, consumo de energia elétrica, processamento, secagem e a fonte de proteína utilizada na comparação.
Por isso, o fato de um produto ser produzido a partir de insetos não significa, automaticamente, que tenha menor impacto ambiental em qualquer situação.

Europa já possui produtos autorizados
Enquanto o Brasil ainda desenvolve pesquisas e enfrenta questões regulatórias, a União Europeia possui autorizações para determinadas espécies e formas de produtos à base de insetos.
Entre os produtos autorizados estão determinadas formas de tenébrio, grilo doméstico, gafanhoto migratório e Alphitobius diaperinus. Em janeiro de 2025, a Comissão Europeia também autorizou o pó de larvas inteiras de Tenebrio molitor tratado com luz ultravioleta, dentro das condições estabelecidas para o produto.
As autorizações europeias são específicas e incluem condições de utilização e rotulagem. Elas também não significam liberação automática desses mesmos produtos para comercialização no Brasil.
Pesquisa brasileira continua avançando
Em abril de 2026, a Unicamp divulgou uma tecnologia que utiliza o Gryllus assimilis para obtenção de diferentes frações, como proteínas, fibras e lipídios. A universidade informou que a tecnologia está disponível para licenciamento.
Outra pesquisa, divulgada pelo Jornal da Unicamp em junho, avaliou a alimentação de larvas de Tenebrio molitor e Zophobas morio com ora-pro-nóbis. O estudo mostrou resultados relacionados ao teor de proteína e ao crescimento dos insetos, mas também evidenciou que alterações na alimentação precisam considerar os efeitos sobre a produtividade.
No campo da percepção do consumidor, a Embrapa também vem avaliando formas de reduzir a rejeição a alimentos elaborados com insetos.
O cenário mostra que a proteína de insetos ainda está em fase de desenvolvimento no país. Para chegar de forma regular ao mercado de alimentos humanos, são necessários estudos de segurança, enquadramento e autorização sanitária, desenvolvimento de processos produtivos, escala econômica e aceitação dos consumidores.




