A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, registrada na madrugada do último sábado, marcou um dos episódios mais impactantes da política internacional recente. A ação resultou na queda e prisão do presidente Nicolás Maduro, que já se encontra em Nova Iorque, onde deverá ser julgado pelas autoridades norte-americanas. Diante do novo cenário, surgiram dúvidas centrais sobre a governabilidade da Venezuela e os reais interesses dos Estados Unidos na região. Para analisar o momento, o jornalista Ernesto Júnior conversou com o economista, analista de política internacional e professor da PUC Minas, Bruno Haeming.
PARTICIPE DO NOSSO GRUPO NO WHATSAPP E RECEBA NOTÍCIAS
Segundo Haeming, o primeiro grande ponto de incerteza está relacionado à forma como o país será administrado após a retirada de Maduro. Apesar de declarações iniciais do presidente Donald Trump indicando que os Estados Unidos “liderariam” a Venezuela, o governo norte-americano recuou, afirmando que haverá um processo de transição rápida.
Ainda assim, não foi definido um nome claro para substituir Maduro. A principal líder da oposição, Maria Corina Machado, foi publicamente descartada por Trump, abrindo espaço para um vácuo de poder que acabou sendo ocupado pela vice-presidente Delcy Rodríguez, conduzida ao cargo de presidente interina.
O professor destaca que o papel dos ex-militares venezuelanos ainda permanece envolto em incertezas. Tudo indica que setores das Forças Armadas consentiram com a operação, permitindo a queda de Maduro sem resistência significativa. Para Haeming, esse aspecto será fundamental para compreender o que ele define como uma “nova forma de invasão” inaugurada pelos Estados Unidos, menos explícita militarmente, mas altamente eficaz do ponto de vista estratégico.
Outro ponto central da análise é a mudança da política externa dos Estados Unidos. Declarações do secretário Marco Rubio e do próprio Trump evidenciam um reposicionamento, com foco na consolidação do poder regional na América do Sul. Nesse contexto, o analista afirma que o discurso político acaba servindo como pano de fundo para interesses econômicos bem definidos, especialmente relacionados ao petróleo venezuelano.
De acordo com Haeming, o petróleo da Venezuela possui características ideais para as refinarias norte-americanas, principalmente por se tratar de óleo pesado, essencial para manter parte da indústria energética dos EUA. Com as sanções impostas à Rússia após a guerra iniciada em 2022 contra a Ucrânia, os Estados Unidos deixaram de receber petróleo russo, o que aumentou a importância estratégica da Venezuela.
“O interesse econômico acaba se sobrepondo ao ideológico”
O especialista ressalta ainda que a ação norte-americana envia um sinal direto ao cenário internacional, especialmente à China e à Rússia, que mantinham forte influência econômica e política sobre a Venezuela. Para ele, a invasão tende a gerar um efeito dominó, levando países com economias dependentes de commodities — como Panamá, Afeganistão e Iraque — a buscar proteção e alianças estratégicas com potências como China e Rússia.
Na avaliação de Haeming, nenhum desses países, no entanto, possui a complexidade social, econômica e militar da Venezuela, que mesmo fragilizada manteve sua estrutura graças ao apoio chinês e russo. Esse novo contexto global pode ampliar tensões também no Sudeste Asiático, na Ásia Central e em regiões estratégicas banhadas pelo Pacífico.
O impacto da crise venezuelana sobre o Brasil também preocupa. O professor alerta que o país entra em um nível elevado de atenção, por ser vizinho direto de uma nação invadida e por estar no centro da disputa entre Estados Unidos e China. Segundo ele, o Brasil poderá ser pressionado a escolher lados, seja aprofundando o alinhamento com os EUA, seja fortalecendo ainda mais os laços econômicos com a China — ambas as opções com potenciais prejuízos econômicos.
Os Estados Unidos seguem como destino relevante para produtos industrializados brasileiros, enquanto a China é o principal comprador de commodities como soja, minério de ferro, carnes e grãos. “Qualquer ruptura significativa com um desses parceiros seria devastadora para a economia brasileira”, destaca Haeming.
Por fim, o analista aponta que a invasão da Venezuela reforça a necessidade de o Brasil fortalecer sua capacidade militar e sua estratégia de política externa. Investimentos em defesa e uma diplomacia mais pragmática, focada na proteção do interesse nacional, tornam-se essenciais para enfrentar o que ele define como um “mar turbulento” que passou a caracterizar o cenário internacional — especialmente na América Latina.




