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Médico de Caçador relata drama após terremoto na Venezuela

Médico de Caçador relata drama após terremoto na Venezuela

Fotos: Arquivo

A tragédia provocada pelos fortes terremotos que atingiram a Venezuela na última quarta-feira (24) ganhou um relato em Santa Catarina. Em entrevista à RBV Rádios, o médico venezuelano Dr. Alberto Valmorbida, radicado em Caçador, compartilhou o drama vivido ao acompanhar, à distância, a destruição de sua terra natal e a busca por informações sobre familiares.

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Natural de Caracas, o médico possui parentes que vivem em La Guaira, no litoral venezuelano, uma das regiões mais afetadas pelo desastre. Segundo ele, o país foi atingido por um raro fenômeno geológico conhecido como “duplo sismo”, caracterizado por dois terremotos ocorrendo praticamente ao mesmo tempo, com poucos segundos de diferença.

Conforme explicou o médico, um dos tremores teve origem no extremo oeste da Venezuela, enquanto o outro ocorreu no extremo leste do litoral. Com Caracas situada entre os dois epicentros, as ondas sísmicas atingiram a capital simultaneamente em diferentes direções.

Inicialmente, o solo se movimentou no eixo vertical e, em seguida, no eixo horizontal. A combinação desses movimentos submeteu prédios, hospitais e demais construções a forças cruzadas, comprometendo estruturas projetadas para suportar apenas um tipo de deslocamento. O resultado foi o colapso de centenas de edifícios residenciais, comerciais e unidades de saúde.

Dr. Alberto contou que estava assistindo a um jogo da Seleção Brasileira quando recebeu um alerta de terremoto em seu celular, por ainda possuir um número venezuelano cadastrado.

Em um primeiro momento, acreditou que se tratava de uma brincadeira ou até mesmo de imagens produzidas por inteligência artificial. No entanto, ao acessar as redes sociais, viu vídeos mostrando o desabamento de prédios onde cresceu e também a destruição completa do hospital onde concluiu sua formação médica.

Enquanto imagens de satélite indicavam que mais de 500 edifícios haviam desabado nas primeiras horas após os tremores, o médico estava de plantão no Hospital Maice. O impacto emocional foi tão intenso que ele precisou ser atendido pelos próprios colegas e acabou sendo substituído no plantão para tentar estabelecer contato com os familiares.

Horas de angústia e perdas na família

Segundo o relato, as primeiras 12 horas após o terremoto foram marcadas pelo completo isolamento devido ao colapso das redes de comunicação, provocado pela queda de antenas e sistemas de transmissão.

Sua mãe, que possui dificuldades de locomoção, e sua irmã conseguiram escapar do prédio onde moravam em La Guaira junto com crianças da família. Durante a fuga, buscaram abrigo em uma área de mata próxima a uma montanha, onde passaram a noite sob chuva para se manterem longe de edifícios que continuavam desabando em razão das réplicas.

Apesar do alívio pelo resgate das duas, outras perdas atingiram a família do médico.

Seu irmão, também médico, perdeu a residência e permaneceu desaparecido durante 24 horas, sendo localizado com vida no dia seguinte.

Já uma irmã de criação e o cunhado morreram após não conseguirem deixar o edifício onde moravam. O filho do casal foi resgatado entre os escombros e permanece internado, intubado, em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital em Caracas.

Além disso, quatro primos continuam desaparecidos, enquanto o pai do médico não estava na cidade no momento do desastre.

“É ver teu passado ser apagado em segundos”

Durante a entrevista, Dr. Alberto descreveu o cenário como semelhante a um filme de ficção científica e afirmou que ainda tenta processar emocionalmente tudo o que aconteceu.

Segundo ele, a sensação é de assistir à destruição de toda a história construída ao longo da vida em poucos segundos.

Até o momento de seu relato, os dados oficiais apontavam cerca de 2 mil corpos resgatados. No entanto, segundo o médico, estimativas indicavam que o número de mortos poderia ultrapassar 10 mil, além de mais de 60 mil desaparecidos sob os escombros.

Ele também destacou a atuação de brigadas internacionais e agradeceu o envio de ajuda humanitária por países como Brasil, Estados Unidos e, especialmente, El Salvador, que encaminhou seis aviões carregados com suprimentos para atender as vítimas.

Apelo por solidariedade

Morando atualmente em Caçador, Dr. Alberto Valmorbida fez um apelo para que a comunidade internacional mantenha ações de solidariedade em favor da população venezuelana, principalmente por meio de doações e ajuda humanitária.

O médico também incentivou os venezuelanos que vivem no Brasil a manterem a esperança e procurarem apoio psicológico diante do impacto emocional provocado pela tragédia.

Ele revelou que está recebendo acompanhamento profissional para enfrentar o momento e destacou que Santa Catarina disponibilizou canais de assistência psicológica para imigrantes venezuelanos, além do suporte oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Ele agradeceu o acolhimento recebido da comunidade de Caçador e afirmou que, apesar de considerar os últimos dias como os mais difíceis de sua vida, acredita que a população venezuelana conseguirá superar a tragédia.

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