A ave registrada recentemente sobre os telhados de Caçador não é um visitante estranho. Pelo contrário, trata-se do Carcará (Caracara plancus), um ilustre e inteligente habitante dos céus brasileiros, perfeitamente integrado à paisagem urbana do Meio-Oeste catarinense. Popularmente conhecido como “Carrancho”, ele pertence à família dos falcões, embora se comporte muitas vezes como um gavião ou urubu.
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O “Guardião” dos Telhados e das Estradas
O Carcará é uma espécie nativa com alta capacidade de adaptação (sinantropia), vivendo com o mesmo conforto em zonas rurais e centros urbanos. Ele utiliza a arquitetura humana — como edifícios, antenas e postes — como poleiros estratégicos para monitorar o território com sua visão privilegiada.

Carcará (Caracara plancus)
Parque de Exposições, Caçador, Santa Catarina, Outubro de 2021
Como identificá-lo:
- Topete: Penas escuras no topo da cabeça que lembram um “boné”.
- Face: Pele nua que varia entre amarelo e laranja nos adultos. Quando a ave está estressada, a cor da face tende a ficar mais alaranjada ou avermelhada.
- Bico: Robusto e curvado. Indivíduos jovens, como o avistado em Caçador, possuem o bico de tom mais rosáceo.
- Pernas: Longas e amarelas, permitindo que a ave caminhe e corra pelo chão com agilidade.
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O “Gari da Natureza”
O sucesso do Carcará deve-se ao seu comportamento onívoro, generalista e oportunista. Ele desempenha um papel ecológico fundamental ao eliminar resíduos orgânicos e equilibrar a fauna local. Sua dieta inclui:
- Necrofagia: Consumo de carcaças e animais atropelados ao longo de rodovias.
- Caça ativa: Captura de invertebrados, répteis, roedores e anfíbios.
- Pirataria: Roubo de alimento e de filhotes de ninhos de outras aves, inclusive espécies grandes como garças e tuiuiús.
- Alimentação variada: Pode comer desde amendoim e frutos até restos de comida em lixos domésticos.
Diferenciando o Carcará de outras aves da região
É comum confundir o Carcará com outros rapinantes do Meio-Oeste. Veja as diferenças principais:
- Gavião-carijó (Rupornis magnirostris): É bem menor (cerca de 40 cm) e possui o peito estriado de cinza e branco. Suas asas em voo são arredondadas, enquanto as do Carcará são longas e retas, com manchas brancas nas pontas que parecem “mãos” claras.

- Quiriquiri (Falco sparverius): Um dos menores falcões do mundo, do tamanho de um sabiá. Tem o hábito de “peneirar” (ficar parado no ar batendo as asas rapidamente).

- Gavião-chimango (Milvago chimango): Parente próximo, mas de cores mais sóbrias e quase inteiramente marrom-claro. Não possui o contraste marcante do “boné” preto e face laranja do Carcará.

Um Toque de Humildade perante a Natureza

Para o observador de aves Vitor Thomé Chechetto, registros como este em Caçador reforçam a importância da preservação. “O fato de você parar tudo ao teu redor e focar em estar olhando uma coisa singela e gratuita, que é a natureza, traz uma noção de humildade. Aprendemos a respeitar e cuidar para que gerações futuras também consigam se deslumbrar com isso”, destaca.
A taxa de reprodução desses rapinantes não é grande; geralmente têm apenas um filhote por vez, dedicando até dois anos para passar todo o conhecimento de sobrevivência ao jovem. Ao avistar um carcará, o ideal é observar à distância, sem interferir ou alimentá-lo.




