Um para-raios radioativo contendo o radioisótopo amerício-241 foi retirado de uma antiga torre da Rádio Videira, após a estrutura cair durante um serviço de limpeza do terreno. O material, utilizado décadas atrás em sistemas de proteção contra descargas elétricas, foi recolhido na manhã de quinta-feira (30) por uma equipe especializada em emergências radiológicas da Defesa Civil de Santa Catarina.
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A operação contou com profissionais capacitados em proteção radiológica e teve como objetivo garantir o recolhimento e a destinação adequada do material. Segundo os especialistas, não foi constatada contaminação no local, e o equipamento estava armazenado de forma segura desde que foi encontrado.
Torre de rádio estava desativada em Videira
A antiga torre havia sido desativada antes da pandemia e não era mais utilizada para os serviços de transmissão. Por ser uma estrutura antiga, a desmontagem manual não era considerada viável. Durante um trabalho de limpeza do terreno, uma máquina atingiu a estrutura, provocando a queda da torre. Foi nesse momento que a equipe técnica da Rádio Videira identificou o antigo dispositivo de proteção.
O técnico em telecomunicações da emissora, João Carlos Pacheco, explicou que, após verificar o equipamento, constatou que a ampola e o disco que continham o material estavam intactos. Diante da descoberta, a equipe buscou orientação junto aos órgãos responsáveis sobre como proceder com o material.
“A ampola, o disco não tinha sido rompido, estava intacto”

Material foi armazenado com segurança
Após a identificação do para-raios, o equipamento foi colocado dentro de um tonel de ferro fechado e envolvido em uma manta asfáltica com alumínio, como medida de contenção. “Aí foi colocado dentro de um tonel de ferro fechado. Também enrolei ela numa manta asfáltica dessas que têm o alumínio junto, que ajuda a vedar, não dispersar a radiação”, explicou João Carlos.
O procedimento foi adotado enquanto a emissora buscava uma solução definitiva para a destinação do equipamento. Com a previsão de transformação da área onde ficava a antiga torre em um loteamento, os responsáveis pela rádio voltaram a procurar os órgãos especializados para providenciar o recolhimento.

Equipe especializada veio de Florianópolis para recolher equipamento em Videira
A operação mobilizou integrantes da Comissão Estadual de Prevenção, Preparação e Resposta Rápida a Emergências com Produtos Perigosos (P2R2), ligada à Defesa Civil de Santa Catarina. Uma equipe formada por profissionais capacitados em resposta a emergências radiológicas e nucleares veio até Videira para avaliar a situação, realizar as medições necessárias e recolher o material.
O professor e doutor em Física Marcelo Girard Chapo, integrante da equipe responsável pela proteção radiológica, explicou que o atendimento ocorreu após o contato entre os responsáveis pelo material, a Comissão Nacional de Energia Nuclear e os órgãos estaduais. Segundo ele, o material radioativo é enquadrado na classe 7 dos produtos perigosos, o que exige procedimentos específicos para manuseio, transporte e destinação. Após a avaliação técnica, foi constatado que não havia contaminação no local.
“Foi constatado que não havia nenhum problema de contaminação, foi tudo regularizado”
O para-raios foi então acondicionado em uma caixa de transporte com blindagem de chumbo e encaminhado para a destinação adequada.
Durante a operação, os especialistas também confirmaram qual era o radioisótopo presente no equipamento. O professor e pesquisador em proteção radiológica Flávio Augusto Pena Soares explicou que o material encontrado contém amerício-241, um radioisótopo utilizado em antigos dispositivos de para-raios.
Segundo ele, o material presente no equipamento possui baixa intensidade radioativa e está em estado sólido, na forma metálica.
“Esse radioisótopo inserido possui baixíssima intensidade e está na forma sólida porque está metálico”
O pesquisador destacou ainda que o material foi classificado pela Agência Internacional de Energia Atômica em uma categoria de baixo risco para exposição externa. “Sem potencial de causar qualquer dano ao ser humano, mesmo se alguém ficar exposto, ficar perto por alguns meses”, afirmou.
Entretanto, o especialista fez uma ressalva importante: o risco aumenta caso o material metálico seja fragmentado e suas partículas sejam ingeridas ou inaladas.
“Se você ingerir ou inalar essas pequenas partículas, aí sim torna mais fácil de você, estando dentro do seu corpo, causar algum pequeno dano”
Situação não foi considerada emergência radiológica
Apesar da presença do material radioativo, os especialistas esclareceram que o caso registrado em Videira não foi classificado como uma emergência radiológica. Segundo Flávio Augusto Pena Soares, o para-raios havia sido armazenado corretamente depois de ser encontrado, e a embalagem utilizada oferecia segurança.
“A situação Videira não foi uma emergência, mas sim uma ocorrência radiológica”
O objetivo da equipe foi acompanhar e garantir que o descarte ocorresse de acordo com os procedimentos técnicos.
Para-raios radioativos deixaram de ser utilizados
Os antigos para-raios tinham a função de proteger equipamentos e estruturas contra descargas elétricas. O dispositivo cria um caminho seguro para conduzir a descarga até o solo, evitando danos aos equipamentos conectados às torres. Entretanto, a utilização de materiais radioativos nesses equipamentos deixou de ser considerada justificável.
O responsável pelo setor de Tecnologia da Informação do grupo RBV Rádios, Márcio Tascheck, explicou que, em 1989, o Conselho Nacional de Energia Nuclear publicou uma resolução após estudos apontarem que os para-raios radioativos não apresentavam eficiência superior comprovada em relação aos modelos convencionais.
“Não havia justificativa para continuar utilizando, fabricando e instalando esse tipo de material”
A regulamentação, porém, não determinou automaticamente a retirada de todos os equipamentos radioativos que já estavam instalados. Por isso, o antigo dispositivo permaneceu na estrutura da Rádio Videira até a desativação da torre e posterior queda durante o trabalho de limpeza do terreno.

Rádio buscou orientação dos órgãos responsáveis
Segundo Tascheck, a equipe da emissora procurou informações junto aos órgãos especializados antes de realizar qualquer procedimento de descarte. A pesquisa incluiu orientações sobre armazenamento, transporte, identificação do material, documentação necessária e riscos relacionados ao manuseio.
Mesmo após consultar materiais técnicos, a rádio buscou contato direto com os órgãos responsáveis para garantir que o procedimento fosse realizado corretamente. A partir desse contato, profissionais especializados em proteção radiológica foram mobilizados para acompanhar a ocorrência em Videira.
Após o recolhimento, o para-raios será encaminhado para uma destinação autorizada. Uma das possibilidades é que o equipamento seja utilizado para fins didáticos em instituições de ensino e pesquisa. O Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) participa da comissão estadual responsável por emergências envolvendo produtos radioativos e possui profissionais especializados na área.
A equipe que esteve em Videira realizou medições dos níveis de radiação para assegurar que o recolhimento e o transporte fossem feitos de maneira segura. “Realizando as medições dos níveis de radiação para garantir que houvesse uma manipulação e um descarte seguro para que ninguém recebesse dose de radiação”, explicou Flávio Augusto.
A retirada do material também encerra uma etapa relacionada à antiga estrutura da Rádio Videira. A área onde estava instalada a torre deverá ser transformada em um loteamento. Com o recolhimento realizado de forma técnica e monitorada, o material radioativo deixou o local e seguirá para a destinação definida pelos órgãos especializados.
A operação também serviu para demonstrar a importância de procedimentos específicos quando equipamentos antigos contendo materiais radioativos são encontrados. Atualmente, as estruturas utilizadas pela RBV Rádios contam com sistemas de proteção convencionais contra descargas elétricas, sem a utilização de materiais radioativos.




