Às 7 horas da manhã, enquanto Videira ainda começa a despertar, o Hospital Salvatoriano Divino Salvador – HSDS já está acordado há muito tempo. Não há silêncio. Há passos pelos corredores, portas que se abrem, equipamentos que começam a funcionar, profissionais que chegam para mais uma jornada e histórias que, naquele instante, começam a se cruzar.
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Foi assim que começou uma experiência especial: 12 horas dentro do Hospital Divino Salvador, acompanhando de perto a rotina de uma instituição que completou 70 anos de história. Uma jornada que permitiu enxergar aquilo que normalmente não aparece para quem chega ao hospital apenas como paciente ou acompanhante.
Porque um hospital não é feito somente de médicos, enfermeiros, cirurgias e medicamentos. É feito de pessoas. E, talvez, seja justamente isso que mais chama atenção quando se passa um dia inteiro dentro dele.
O dia começa no centro cirúrgico
Logo nas primeiras horas da manhã, o centro cirúrgico já concentra uma parte importante da movimentação. Enquanto a cidade segue seu ritmo do lado de fora, dentro do hospital equipes se preparam para procedimentos que podem representar um recomeço para quem está na mesa de cirurgia.
São decisões, protocolos, equipamentos e responsabilidades. Mas, por trás de tudo isso, existe algo que não aparece nos prontuários: a esperança de alguém voltar para casa. Uma profissional que atua há 25 anos no hospital resume o sentimento de quem construiu parte da própria vida dentro daquela instituição: é motivo de orgulho fazer parte de um hospital desse porte.
E cada cirurgia carrega uma engrenagem que envolve muito mais pessoas do que aquelas que aparecem diante dos olhos do paciente. Entre elas estão os instrumentadores cirúrgicos.
“Nós somos o segundo olhar do cirurgião”
Enquanto o médico concentra sua atenção no procedimento, o instrumentador precisa antecipar movimentos, conhecer materiais, dominar anatomia e compreender cada etapa da cirurgia. No Hospital Divino Salvador, são realizadas atualmente cerca de 510 a 520 cirurgias por mês. O número revela uma transformação importante: em 2018, eram aproximadamente 212 procedimentos mensais.
Mas números, ali, nunca contam a história inteira. A verdadeira medida está nos pacientes que chegam de uma maneira e saem de outra. Na melhora. Na recuperação. No reencontro com a família. E na satisfação de quem está do outro lado dessa história.
Antes da cirurgia, existe um trabalho que quase ninguém vê
Se o centro cirúrgico é o palco de procedimentos que podem mudar vidas, existe um setor trabalhando silenciosamente para que tudo aconteça com segurança. É a Central de Material e Esterilização. Ali, instrumentos utilizados nas cirurgias passam por um processo rigoroso de limpeza, preparo, embalagem e esterilização.
São aproximadamente 6 mil esterilizações por mês, segundo a equipe. O trabalho começa na chamada área suja, passa pela limpeza, pela preparação dos materiais e chega às autoclaves. Atualmente, o hospital trabalha com três autoclaves e recebeu, em 2026, um novo equipamento que auxilia na limpeza mais profunda dos materiais. É um daqueles trabalhos que quase ninguém percebe quando tudo dá certo. E talvez esse seja justamente o sinal de que ele está sendo bem feito.
Pouco depois, a rotina muda. O hospital deixa de ser apenas o lugar onde doenças são tratadas e passa a ser também o lugar onde novas vidas começam. Nos últimos meses, o Hospital Divino Salvador passou a contar com um espaço dedicado aos partos humanizados. Ali, o ambiente foi pensado para acolher mães e familiares em um dos momentos mais importantes de suas vidas.
A proposta é incentivar o parto normal e oferecer às mulheres suporte para enfrentar os medos que cercam esse momento. Durante o plantão, acompanhamos o pós-parto de Martina, uma das novas videirenses. Para a família, aquele dia carregava um significado ainda maior. A mãe já havia vivido a experiência de ter o primeiro filho no hospital, por cesariana. Com Martina, existia o desejo de vivenciar um parto normal. E esse desejo encontrou espaço dentro de uma estrutura preparada para recebê-lo.
“É uma data inesquecível para a nossa família”
Há momentos em que uma reportagem deixa de ser apenas reportagem. Naquele instante, diante de uma mãe que acabara de dar à luz, o hospital mostrava uma de suas faces mais bonitas: a capacidade de testemunhar o começo de uma vida.
O cuidado continua depois do primeiro choro
Depois do nascimento, outra equipe assume a missão. Recém-nascidos são avaliados, pesados, recebem os cuidados necessários e permanecem sob atenção dos profissionais. Há quase três décadas trabalhando no hospital, uma das profissionais responsáveis pelo atendimento aos bebês fala com uma emoção que dispensa qualquer explicação.
Ela diz fazer seu trabalho com amor e carinho. E é difícil imaginar definição melhor para aquele momento. Alguns bebês precisam de cuidados intensivos. Por isso, o hospital dispõe de equipamentos como ventiladores, baby puff e berços aquecidos. Tudo para que os primeiros minutos de uma vida sejam também os mais seguros possíveis.
Uma farmácia que ajuda a cuidar do próprio hospital
Do lado de fora da estrutura hospitalar, mas diretamente ligada à missão da instituição, está a Farmácia Salvatoriana. Criada em 21 de julho de 2022, a farmácia completou quatro anos e nasceu com uma finalidade especial: reverter seu lucro para o Hospital Divino Salvador.
A lógica é simples e, ao mesmo tempo, poderosa. Quem compra na farmácia também ajuda a manter e melhorar a estrutura hospitalar. E isso transforma uma operação comercial em parte de uma rede de cuidado. As melhorias realizadas no hospital, afinal, não ficam restritas aos corredores. Elas chegam à população.
O hospital também é feito de quem escolheu ficar
Talvez uma das frases mais marcantes ouvidas durante as 12 horas tenha vindo de uma profissional que está há décadas na instituição. “Para mim estar aqui é uma vida”, afirmou. Ela entrou no hospital aos 20 anos. E permaneceu.
Falou sobre a sensação de saber que um dia deixará aquele lugar, mas também sobre a certeza de que outras pessoas chegarão para continuar a missão. É uma frase que ajuda a entender o que existe por trás dos 70 anos do Divino Salvador. Instituições envelhecem. Prédios mudam. Equipamentos são substituídos. Profissionais se aposentam. Mas algumas missões permanecem.
A porta de entrada de todas as histórias
Em determinado momento do plantão, chegamos à recepção. Pode parecer apenas mais um espaço do hospital. Não é. É ali que chegam idosos, gestantes, pacientes para exames, pessoas encaminhadas para procedimentos e aqueles que entram carregando algum tipo de preocupação.
A recepção é a porta de entrada. E quem trabalha ali sabe que o primeiro atendimento também é uma forma de cuidado. Receber alguém com carinho, atenção e respeito pode parecer um gesto pequeno. Dentro de um hospital, não é.
Perto do meio-dia, uma movimentação diferente toma conta da instituição. É hora da refeição. Na cozinha e na copa, o trabalho não para. Ali, a comida também é parte do tratamento. Dietas são preparadas de acordo com as orientações médicas e nutricionais e chegam aos pacientes com uma missão que vai além de matar a fome: ajudar na recuperação.
Uma das profissionais conta que aprendeu a fazer polenta dentro do próprio hospital. E descobriu também um novo significado para aquilo que fazia. Quando um paciente elogia a refeição, ela diz que ganhou o dia. Talvez porque, em um hospital, até uma polenta possa carregar um pouco de carinho.
O medicamento certo, na hora certa
Enquanto alguns pacientes recebem refeições, outros dependem de medicamentos. Na farmácia interna, cada prescrição precisa ser conferida. Os medicamentos são separados por setor, preparados e entregues para que cada paciente receba aquilo que foi determinado pela equipe médica.
A responsabilidade é enorme. É preciso conferir, separar, identificar e garantir que o medicamento correto chegue ao paciente certo, no horário certo. Mais um trabalho silencioso. Mais uma engrenagem que precisa funcionar.
Passadas algumas horas, chegamos ao pronto-socorro. Ali, o ritmo é diferente. Não existe espaço para esperar. O pronto-socorro é descrito pela própria equipe como o coração do hospital. É onde chegam os casos de urgência e emergência. É também onde a classificação de risco determina a prioridade de atendimento.
Vermelho significa risco de morte nos próximos minutos ou horas. Casos como suspeita de infarto, AVC, insuficiência respiratória e acidentes graves exigem atendimento imediato. Na classificação laranja, o atendimento deve ocorrer em torno de 10 minutos. Depois aparecem amarelo, verde e azul, com tempos de espera progressivamente maiores.
Mas há algo que nem sempre é compreendido por quem aguarda. O pronto-socorro é porta aberta. Todos têm direito ao atendimento. Porém, quando um paciente em estado grave chega, toda a equipe pode precisar se concentrar nele. E, naquele momento, o relógio de quem espera precisa disputar espaço com o relógio de quem corre contra a morte. É uma das partes mais difíceis de explicar. E talvez uma das mais difíceis de viver.
Existem setores que ninguém vê, mas que sustentam tudo
A jornada também nos levou a espaços que raramente aparecem quando pensamos em um hospital. A lavanderia é um deles. Ali, lençóis, fronhas, cobertores e outros itens utilizados diariamente passam por processamento. São cerca de 800 a 900 quilos de roupas por dia, chegando a aproximadamente 21 mil quilos em um mês.
O trabalho acontece todos os dias, de segunda a domingo, durante 12 horas. E ainda atende o Hospital Santa Maria. Duas lavadoras de 60 quilos trabalham para dar conta de uma demanda que cresce junto com o hospital. Mais uma vez, o trabalho que ninguém vê sustenta aquilo que todos precisam.
UTI: onde a palavra medo encontra a palavra esperança
Talvez nenhum espaço carregue tantas emoções diferentes quanto a Unidade de Terapia Intensiva. Para muitas pessoas, ouvir a palavra UTI significa pensar imediatamente em morte. Mas quem trabalha ali enxerga outra coisa. Vida. Cuidado. Possibilidade.
Na UTI, o paciente é monitorado 24 horas por técnicos, enfermeiros e médicos. É o lugar onde os casos mais graves recebem atenção contínua. Sim, existem despedidas. Mas existem também altas. Existem pacientes que chegam em estado grave e, dias depois, deixam a unidade para continuar a recuperação.
Existem famílias que chegam assustadas e depois comemoram. Existe esperança. E existe também a difícil tarefa de conversar com familiares que aguardam notícias. Para quem está do lado de fora, cada minuto parece uma eternidade. Cada boletim médico pode trazer alívio ou preocupação. E os profissionais precisam aprender a lidar com essa espera, mantendo esperança mesmo quando o cenário é difícil.
Setenta anos de história também significam missão
Ao longo das 12 horas, fica impossível falar do Hospital Divino Salvador sem falar das Irmãs Salvatorianas. Em 2026, a Congregação Salvatoriana celebra 90 anos de presença no Brasil. E o hospital representa uma parte central dessa missão. É ali que o carisma se encontra com a vida cotidiana. No nascimento. Na doença. Na recuperação. Na despedida.
A missão salvatoriana está presente justamente onde o ser humano se encontra mais vulnerável. Como foi dito durante a jornada, o hospital é um lugar onde se vive o carisma “desde o nascimento até o final da vida”. E talvez essa seja a melhor definição para aquilo que encontramos.
Quando o dia termina, o hospital continua
Próximo das 17 horas, alguns setores começam a encerrar suas atividades. Estagiários deixam o hospital. Voluntários encerram o trabalho. A luz do fim da tarde começa a mudar a paisagem do lado de fora. Mas dentro do Divino Salvador, a vida continua. Há pacientes internados. Há profissionais trabalhando.
Há medicamentos sendo preparados. Há roupas sendo lavadas. Há exames sendo realizados. Há famílias esperando. Há médicos atendendo. Há enfermeiros cuidando. Há pessoas nascendo. Há pessoas lutando para voltar para casa. E há pessoas que seguem trabalhando mesmo quando o relógio se aproxima das 19 horas.
12 horas para entender que um hospital é feito de pessoas
Foram 12 horas. Das 7 da manhã às 19 horas. Do primeiro procedimento cirúrgico aos últimos trabalhos do dia. Passamos por corredores, centro cirúrgico, central de esterilização, maternidade, farmácia, recepção, cozinha, pronto-socorro, lavanderia, UTI, setores administrativos e áreas que normalmente permanecem longe dos olhos da comunidade.
Conhecemos números. Mas, principalmente, conhecemos histórias. O Hospital Divino Salvador realiza centenas de cirurgias, milhares de esterilizações e toneladas de roupas processadas. Possui profissionais em dezenas de áreas e atende pacientes de Videira e de diferentes regiões. Mas nenhum desses números consegue explicar completamente o que existe ali.
Porque um hospital não pode ser medido somente por sua estrutura. Ele também precisa ser medido pelos abraços. Pelos olhos atentos. Pelas mãos que trabalham. Pelas noites sem dormir. Pelas famílias que esperam. Pelos bebês que choram pela primeira vez. Pelos pacientes que deixam a UTI. Pelos profissionais que dizem amar aquilo que fazem. E pelas pessoas que, depois de décadas, ainda olham para aquele lugar e dizem:
“Aqui é a minha vida.”
Um hospital que olha para os próximos 70 anos
A história do Divino Salvador, porém, não termina nos 70 anos. O futuro também apareceu durante nossa jornada. A instituição enfrenta o desafio de atender uma região que cresceu e que hoje reúne mais de 170 mil habitantes, enquanto sua estrutura precisa acompanhar uma demanda cada vez maior.
A direção trabalha com o projeto de uma nova torre. O objetivo é ampliar a capacidade e permitir que mais pacientes sejam atendidos próximos de suas famílias, evitando transferências para outras regiões quando a estrutura local não é suficiente. É um desafio enorme. Mas talvez seja justamente isso que tenha mantido o hospital de pé durante sete décadas: a capacidade de olhar para cada dificuldade como um convite para continuar.
E, às 19 horas, fica uma sensação
Quando o relógio se aproxima das 19 horas, o nosso plantão termina. O hospital, não. A equipe que começou às 7 da manhã encerra sua jornada, mas outras pessoas continuam. Porque hospitais não fecham quando termina o expediente.
A vida não respeita relógio. O nascimento não espera. A emergência não espera. A dor não espera. A esperança também não. Do lado de fora, Videira segue sua rotina. Dentro do Hospital Salvatoriano Divino Salvador, outra cidade existe. Uma cidade de corredores, portas, macas, jalecos, histórias, lágrimas, sorrisos e esperanças.
Uma cidade onde, todos os dias, alguém chega. Alguém parte. Alguém nasce. Alguém se recupera. Alguém espera. E alguém cuida. Depois de 12 horas acompanhando essa rotina, talvez a principal conclusão seja simples: o Hospital Divino Salvador não são apenas os seus 70 anos de história. São as milhares de pessoas que, ao longo dessas sete décadas, ajudaram a escrever cada uma dessas histórias.
E se as primeiras sete décadas foram construídas com trabalho, fé, dedicação e cuidado, fica o desejo de que as próximas sejam ainda maiores. Mais humanas. Mais acolhedoras. E, acima de tudo, repletas de vida.




