A violência contra crianças e adolescentes continua sendo uma das maiores preocupações da sociedade brasileira. Para conscientizar o público sobre a importância da prevenção e da denúncia, os atores kléber Ribeiro e Vinícius Rodrigues percorreram cidades da região com o espetáculo teatral “O Avesso do Segredo”, uma produção que aborda, de forma sensível e educativa, a realidade do abuso sexual infantil.
Durante participação no podcast RBV Entrevista, os artistas destacaram que a peça busca transformar a arte em uma ferramenta de informação e proteção às crianças. Segundo Cléber Ribeiro, o objetivo principal é incentivar vítimas a romperem o silêncio.
“O contrário do segredo é contar. O espetáculo mostra às crianças que elas precisam falar sobre qualquer situação de violência e que os adultos devem acreditar em seus relatos”
Violência contra crianças acontece mais perto do que se imagina
Um dos pontos ressaltados pelos atores é que muitas pessoas ainda acreditam que casos de abuso infantil acontecem apenas em grandes centros urbanos ou em locais distantes da sua realidade. No entanto, a violência pode ocorrer em qualquer ambiente, inclusive dentro da própria família.
De acordo com dados mencionados durante a entrevista, a cada hora pelo menos oito crianças ou adolescentes sofrem algum tipo de violência no Brasil, um número considerado alarmante pelos participantes. Para Kléber, campanhas de conscientização precisam ultrapassar o mês de maio, quando ocorre a mobilização nacional de combate ao abuso e à exploração sexual infantil.
“Essa é uma campanha que deveria acontecer durante os 12 meses do ano. A prevenção é fundamental para proteger nossas crianças e adolescentes”
Como o espetáculo aborda o tema do abuso infantil
A peça utiliza uma linguagem lúdica e acessível para tratar de um assunto delicado. A história se desenvolve dentro de uma oficina de bonecos, onde surge o personagem Neco, que estabelece uma relação de confiança com seu criador. Ao longo da narrativa, outro boneco ganha vida e passa a representar o abusador. A situação de violência é apresentada de forma simbólica, permitindo que crianças compreendam os limites entre o que é certo e errado, sem expô-las a conteúdos inadequados.
Vinícius Rodrigues explica que o teatro possibilita abordar temas complexos de maneira educativa. “O espetáculo é uma poesia. Ele leva cultura, arte e informação ao mesmo tempo. Muitas crianças estão ouvindo falar sobre abuso pela primeira vez e passam a entender que determinadas situações não são normais”, afirmou.
Um dos aspectos que mais chamou a atenção da equipe foi a reação do público infantil durante as apresentações realizadas em diversos municípios da região. Segundo os atores, as crianças demonstram compreensão da mensagem transmitida pela peça e participam ativamente da história. Em várias cenas, elas alertam o personagem sobre atitudes inadequadas e incentivam o boneco a contar o que está acontecendo.
“Quando o abusador se aproxima dos outros personagens, as crianças gritam que ele não pode encostar. Quando o boneco é orientado a ficar em silêncio, elas respondem: ‘Você tem que contar’. Isso mostra que elas entendem a mensagem”, relatou Vinícius.
Além da participação durante as apresentações, os artistas destacam que muitos momentos marcantes acontecem após o encerramento da peça. Segundo eles, algumas crianças procuram a equipe para conversar, pedir abraços ou compartilhar experiências pessoais. Em alguns casos, os relatos indicam possíveis situações de violência que precisam ser acompanhadas por profissionais especializados.
Por isso, os organizadores sempre solicitam a presença de equipes da rede de proteção, como psicólogos e conselheiros tutelares, para garantir acolhimento adequado caso surjam denúncias. “A criança que revela uma violência não pode sofrer um segundo abuso, que é não ser acreditada. Precisamos ouvir, acolher e proteger”, enfatizou kléber.
Arte e prevenção caminham juntas
Para os participantes do projeto, o teatro desempenha um papel importante na construção de uma cultura de proteção à infância. Embora não substitua o trabalho de profissionais da saúde, assistência social ou segurança pública, a arte contribui para informar, sensibilizar e estimular o diálogo. A experiência vivenciada nas escolas e instituições da região reforça a necessidade de ampliar iniciativas como “O Avesso do Segredo”, levando a discussão para mais municípios e alcançando um número maior de crianças e adolescentes.

