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Desindustrialização com frete grátis

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Foto: Ascom Fiesc

A Medida Provisória que restabelece a isenção do imposto de importação para compras de até US$ 50 em plataformas internacionais de e-commerce não é política pública; é peça de campanha. Editada às vésperas do calendário eleitoral, funciona como confissão: ou a tal “reindustrialização” nunca foi prioridade real, ou serviu apenas como retórica para justificar aumento de arrecadação enquanto isso interessou. Quando a urgência passou a ser “vencer a qualquer custo”, a coerência industrial e tributária foi sacrificada no altar das pesquisas de opinião.

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O contraste com o passado recente é alarmante. Em 2023 e 2024, o próprio governo defendeu animado a “taxa das blusinhas”, os 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. A taxação era vista como requisito mínimo para reduzir a disparidade entre o produto importado, favorecido por isenções, e o produto do lojista brasileiro, submetido à cumulatividade de IPI, PIS/Cofins, ICMS, além de tributos sobre a folha de pagamento e o lucro muito superiores aos dos países asiáticos que dominam a concorrência global.

Diferentemente da ideia ingênua de que a indústria quer viver sob proteção governamental, deve-se lembrar que a indústria é quem compete com o resto do mundo. Hoje estamos submetidos à concorrência desleal com países asiáticos onde o jogo é outro: subsídios diretos e indiretos, crédito barato, benefícios fiscais agressivos, custo de trabalho bem menor, jornadas mais longas – frequentemente com menor proteção trabalhista-, combinados a uma desvalorização cuidadosamente administrada da moeda local. 

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Em Santa Catarina, o tradicional setor de têxteis e vestuário, que responde por 20% do emprego industrial, já vem em um enorme esforço de modernização e de especialização em nichos específicos para manter-se competitivo. Diante desse ambiente doméstico pouco favorável, até o Paraguai tem se revelado como alternativa para investimentos. Parece a alguém que estamos no caminho certo?
Ao isentar importações de pequeno valor via e-commerce, o governo aprofunda a assimetria tributária. O produto estrangeiro, fortemente subsidiado, entra leve, quase sem impostos; o produto nacional chega ao consumidor carregando uma mochila de tributos, burocracia, encargos trabalhistas e juros estratosféricos. A realidade é de que a diferença nas condições competitivas nos empurra para um cenário de competição que já nasce morto.

Seria suficiente parar por aqui, mas esse “protecionismo às avessas”, que transfere emprego e renda do Brasil para o exterior, não é uma iniciativa isolada. O governo insiste em ignorar o manual básico de responsabilidade fiscal. Em vez de enfrentar um ajuste pela via do gasto, aposta exclusivamente na fantasia de que ampliar a carga tributária produzirá, por si só, um resultado virtuoso. Não produzirá! Essa recusa em fazer o óbvio segue sendo o principal obstáculo a uma trajetória consistente de queda da taxa de juros.

O efeito é conhecido: uma taxa básica absurdamente alta, que encarece o crédito, inibe investimento produtivo e alimenta o endividamento crônico de famílias e empresas. Nesse cenário, a MP – de constitucionalidade duvidosa – expõe uma incoerência evidente: de um lado, preserva-se uma estrutura de gasto que exige juros elevados para conter a inflação e pressiona a dívida pública; de outro, adota-se uma renúncia de receita eleitoreira que agrava o desequilíbrio fiscal, preparando o terreno para novos aumentos de impostos ou a manutenção de juros elevados por mais tempo.

A lógica desse arranjo é curiosa: enfraquece-se a indústria nacional, especialmente pequenos e médios produtores, em nome de um suposto benefício imediato ao consumidor. Plataformas estrangeiras ganham espaço enquanto a produção local perde competitividade, empregos e capacidade de sustentar cadeias produtivas inteiras. Ao mesmo tempo, a renúncia de arrecadação sem redução de gastos deteriora as contas públicas e empurra a conta para depois, via mais impostos, mais dívida ou juros ainda mais altos. O resultado tende a ser o de sempre: crédito caro, menos investimento e crescimento travado, mas com a satisfação patriótica de importar mais barato.

Resumindo, o “descontinho” eleitoral nas compras internacionais é vendido como vitória do consumidor, mas a conta não desaparece, apenas muda de forma e de prazo. O populismo tributário de hoje reaparece amanhã em mais impostos, mais juros, menos indústria e menos desenvolvimento. É um ciclo de autossabotagem cuidadosamente embalado em promoção relâmpago de momento eleitoral.

A lógica política parece ser a seguinte: escolhemos o imediatismo do voto, não importando se isso prejudica irremediavelmente o desenvolvimento social e econômico do país, com óbvios prejuízos para todos.

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