Redes sociais passam a ter novas regras para combater conteúdos ilícitos

Entrevista com o advogado e professor universitário Heitor Cofferri aborda as novas responsabilidades das plataformas digitais, violência contra a mulher e os impactos no período eleitoral

As redes sociais passaram a enfrentar novas regras de responsabilização no Brasil após decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e a publicação de decretos que estabelecem mecanismos para combater conteúdos ilícitos no ambiente digital. O tema foi discutido durante o RBV Entrevista, com participação do advogado e professor universitário Heitor Cofferri, que explicou os principais impactos das mudanças para usuários e plataformas.

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Segundo o especialista, as novas medidas regulamentam parte dos efeitos da decisão do STF que considerou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet. Na prática, a discussão amplia a responsabilidade das plataformas diante de determinados conteúdos considerados graves, permitindo que materiais ilícitos sejam retirados sem a necessidade de uma decisão judicial específica em determinadas situações.

“A ideia é fazer com que esses crimes, esses ilícitos, sejam retirados de forma muito rápida, de forma muito eficiente”

Proteção às mulheres no ambiente digital

Um dos principais pontos abordados na entrevista foi a proteção das mulheres contra a violência praticada no ambiente virtual. O especialista destacou que a regulamentação busca combater situações como ameaças, divulgação de imagens íntimas sem consentimento e outras formas de violência de gênero cometidas por meio das redes sociais.

De acordo com Heitor, as plataformas deverão contar com mecanismos mais ágeis para receber denúncias e agir diante de conteúdos que violem direitos. Entre as medidas citadas estão a existência de canais de denúncia, representante legal no Brasil e mecanismos para preservação e fornecimento de dados que possam auxiliar na identificação dos responsáveis.

“A ideia principal é proteger essas mulheres em ambiente digital”

A preocupação também envolve a demora na retirada de conteúdos. Conforme o entrevistado, a regulamentação procura evitar que uma vítima permaneça exposta durante longos períodos enquanto aguarda uma resposta da plataforma.

Plataformas terão dever de cuidado

Outro conceito destacado durante a entrevista foi o chamado dever de cuidado. Conforme Cofferri, as redes sociais passam a ter a obrigação de desenvolver estruturas capazes de identificar, analisar e responder a determinados conteúdos considerados graves. Entre os exemplos mencionados estão terrorismo, crimes contra o Estado Democrático de Direito, incitação ao suicídio, discriminação racial, étnica ou religiosa e discursos de ódio, além de conteúdos relacionados à violência contra as mulheres.

“A ideia não é fazer com que essa plataforma seja regulada de forma ruim, pelo contrário”

O especialista ressaltou ainda que as novas regras não significam o fim da liberdade de expressão. A regulamentação prevê mecanismos de contraditório e defesa para os envolvidos, com a necessidade de fundamentação para a retirada de conteúdos.

Redes sociais e período eleitoral

A discussão ganha ainda mais relevância durante o período eleitoral, quando as redes sociais se tornam importantes ferramentas de comunicação entre candidatos e eleitores. Heitor explicou que os decretos já estão em vigor e continuam sendo aplicáveis durante o período eleitoral.

Ao mesmo tempo, existem regras específicas para o uso de inteligência artificial e conteúdos produzidos por ferramentas generativas nas campanhas eleitorais. Segundo o advogado, a legislação eleitoral possui tratamento próprio para situações envolvendo deepfake e outros conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial. “Esses decretos, eles estão vigentes”, destacou Heitor, ressaltando que as regras não deixam de valer durante o período eleitoral.

Para o entrevistado, situações relacionadas ao direito eleitoral podem eventualmente dialogar com as novas regras, mas os decretos discutidos na entrevista possuem caráter mais geral e estão principalmente relacionados à responsabilização das plataformas diante de crimes graves.

Durante a entrevista, também foi abordado um caso recente envolvendo uma transmissão realizada pelo Discord e uma pessoa que morreu durante uma live. A situação foi citada como exemplo da necessidade de mecanismos capazes de identificar e impedir falhas sistêmicas nas plataformas.

Heitor explicou que a estrutura exigida das empresas deve permitir receber uma denúncia, analisar a informação e tomar uma decisão. Segundo ele, o objetivo é evitar situações em que a ausência de mecanismos internos permita que conteúdos ou situações graves permaneçam sem resposta.

O advogado também destacou que as medidas ainda são recentes e que será necessário acompanhar como as plataformas irão implementar os mecanismos previstos e como os usuários irão utilizar os canais de denúncia.

Multas e outras punições

As novas regras também estabelecem possíveis sanções para empresas que não cumprirem as determinações. Conforme explicado durante a entrevista, entre as medidas estão advertências, suspensão temporária, restrições específicas de funcionamento, proibição definitiva e multas.

Heitor mencionou a possibilidade de multa de até 10% do faturamento anual das empresas, além de outras penalidades. O caso do Discord foi citado durante a conversa como exemplo de aplicação de sanção relacionada às atividades da plataforma no Brasil.

Outro ponto considerado importante pelo especialista é a exigência de que plataformas tenham um representante legal no território brasileiro. A medida busca facilitar a comunicação com as empresas e permitir que autoridades e usuários tenham um canal de contato para questões relacionadas ao cumprimento da legislação brasileira.

Para Heitor Cofere, a presença de um representante no país também dificulta que empresas deixem de cumprir determinações sob a justificativa de não possuírem estrutura ou representação no Brasil.

“Para a rede funcionar no Brasil, a gente precisa que uma pessoa represente isso para que a gente facilite essas questões”

Regulamentação deve continuar sendo debatida

Apesar de considerar as novas medidas um avanço, Heitor Cofferri defende que o Brasil avance para uma legislação específica sobre a regulamentação das plataformas digitais. Na avaliação dele, uma discussão no Congresso Nacional permitiria maior participação da sociedade, universidades, organizações e diferentes setores envolvidos com o tema.

“O ideal […] é que exista uma legislação que faça uma regulação específica”, afirmou o advogado. Para ele, uma lei construída com participação da sociedade tende a ser mais colaborativa e democrática. O especialista destacou que os decretos representam um primeiro passo, mas que ainda existem questões que precisam ser discutidas e aperfeiçoadas.

Durante a entrevista, Heitor também reforçou que a regulamentação das plataformas não deve ser confundida com uma tentativa de impedir a manifestação dos usuários nas redes sociais.

Segundo ele, a proposta não é proibir publicações, opiniões ou manifestações, mas estabelecer mecanismos para impedir que crimes graves e discursos de ódio permaneçam disponíveis nas plataformas sem qualquer tipo de intervenção.

“A ideia não é proibir ninguém de usar redes sociais, de realizar postagem, fotos, escrever o seu texto”

Para o advogado, o desafio está em encontrar um equilíbrio entre a liberdade de expressão e a proteção dos direitos fundamentais, especialmente diante do crescimento do uso das redes sociais como espaço de comunicação, informação e debate público.

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Fonte:
Ernesto Júnior | Rádio Videira

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